Será que a novela vai ser boa?
Em breve, teremos a satisfação de ver as belíssimas paisagens da Chapada Diamantina emoldurando a trama de uma novela da Rede Globo. Nas redes sociais, nos jornais, nos blogs e entre os influenciadores chapadeiros não se fala de outra coisa. Cada cidade – sim, as prefeituras estão animadíssimas – postando em seus perfis de rede social por onde equipe de gravação e atores (renomados, diga-se de passagem) estão caminhando. Teve até um influenciador que publicou o animado convite da emissora para ele participar de uma cena da novela.
Pode ser matriotismo, bairrismo, chame como quiser. O fato é que estar numa novela em rede nacional tem chamado mais atenção do público chapadeiro do que as tramas da vida real, cotidianos exemplos de que, sim, a Chapada daria uma novela. É importante avisar que não é exatamente uma novela de amor. Ou talvez seja, pensando melhor, quem não desiste dos seus ideais, de defender sua terra, de cuidar da natureza e das comunidades que existem aqui também são cheios de amor. Então, sim, as novelas reais da Chapada são de amor.
A história, a ancestralidade desse território está em cada minúscula célula de vida que se manifesta aqui. Essa mesma ancestralidade é a que vem cuidando da Chapada, dos seus modos de vida, da sua produção não agressiva, da sua riqueza cultural, tudo isso fazendo parte das tramas vitais que sustentam o espaço que muitos amam visitar. Alguns até falam “explorar”, como se não soubessem que essa palavra faz estremecer até as pedras do morro mais alto da Chapada.
Por aqui, história é o que não falta. Tem um Boi de Mariá que povoa os imaginários de diversas comunidades quilombolas, manifestação cultural de mais de 200 anos, que tem um enredo fantástico contado de forma majestosa por integrantes de povoados como a Tiririca de Cima, em Ibitiara, ou Morro Redondo, em Seabra. Quem nunca se estremeceu com as aparições extraterrestres no Vale do Capão e em Morro do Chapéu? Entre o Natal e o 6 de janeiro, só não vai atrás do Reisado percorrendo a cidade e zona rural de Iraquara quem não sabe o que é bom. E a Marujada de Lençóis, história viva, tanto quanto a do Terno das Almas de Igatu com a procissão de gente coberta por lençois na quaresma. Isso não é dez por cento de um território que tem até religião própria. Isso mesmo: o Jarê, religião de matriz africana exclusiva da Chapada Diamantina, tem muito a contar.
Mas como nenhuma novela é feita apenas de alegrias, as da Chapada também não são. Enquanto na TV, o enredo apresenta traições, falência, casamentos desfeitos; na Chapada, a parte ruim é tudo aquilo que tenta acabar com ela. De vez. E não é pouca coisa, a trama aqui impacta vidas reais e o meio ambiente de forma irreversível.
A Chapada Diamantina está ameaçada e esse é o enredo principal de que todos precisam se inteirar. Projetos comprometem sua conservação ambiental e o bem estar de seus povos. Ao longo das últimas décadas, a implementação de empreendimentos vinculados ao agronegócio, à energia eólica e à mineração causou – e continua causando – severos impactos ecológicos e socioambientais, afetando os direitos das comunidades tradicionais.
Às comunidades da Chapada vêm sendo impostas, portanto, toda sorte de violação do seu bem-estar e do seu direito à vida. Vale lembrar que foram os modos de vida e produção desses mesmos povos tradicionais que mantiveram o máximo possível da Chapada Diamantina preservada. No entanto, nesse enredo de absurdos, a gradativa invasão de seus territórios está tornando insustentável a sua permanência e, com isso, as comunidades se vêem expulsas e a preservação da natureza se perde com o afastamento do conhecimento tradicional dos modos de vida e produção.
Há atrocidades sendo cometidas contra pessoas e comunidades inteiras, entre violências físicas, psicológicas, destruição do modo de vida, destruição de patrimônio, lavouras e criações de subsistência, ataques à saúde das pessoas, danos ambientais irreversíveis (assoreamento de rios, queimadas, desmatamento, extinção de nascentes, destruição de evidências naturais sobre animais e flora endêmica, destruição de painéis rupestres, contaminação do ar e da água), tudo isso para introduzir compulsoriamente na história do territória a soberania do capital sobre a vida, independente de em que forma ela se manifeste, seja humana, das espécies de flora e fauna ou social.
Essa história, embora verdadeira, é difícil de engolir. Quem acreditaria que num território exuberante desses está se desenrolando tão grave narrativa? Aos incrédulos, os fatos. Quem sabe o roteiro sensibiliza canais de streaming, escritores de romance ou – sonhando alto – algum diretor “roliudiano”. Sonhar é de graça.
Quem conhece minimamente a militância chapadeira sabe que na cidade de Piatã uma mineradora quase destruiu duas comunidades vizinhas, Bocaina e Mocó. A Bocaina é uma comunidade normal da zona rural cujo casting principal é formado por trabalhadores do campo, entre agricultores, criadores de pequenos rebanhos, apicultores e gente simples trabalhadora. Refúgio de negros fugidos da escravização que se juntaram aos indígenas da etnia Tapuya, é uma comunidade quilombola reconhecida pela Fundação Palmares. Pacata, a comunidade, assim como a sua vizinha Mocó, vivia do seu modo, aproveitando da natureza apenas o que poderia mantê-la, bebendo água de nascentes e encarando mudanças que, a princípio, não pareciam ameaçadoras, como a chegada da energia elétrica.
Numa dessas reviravoltas que hoje se costuma americanizar em “plot twist”, a mudança radical no enredo da Bocaina veio com a chegada de uma mineradora de ferro. Os moradores foram apresentados à devastação do seu lugar e do seu modo de vida. Doenças, perda de trabalho, poeira tóxica, contaminação da água e do ar, assoreamento de rios… e foi embora tudo que dava à comunidade o significado da existência em coletivo. A perda da união talvez tenha sido a maior violência, a empresa de minério tratou de fazer ofertas e cooptar moradores para irem contra seus pares, a fim de abrir caminho para a exploração.
Com raiz forte, a comunidade se manteve, brigou na justiça e garantiu o direito de interromper o trabalho da mina. Mas o estrago já estava feito. As lavouras não produzem mais, o pó de rejeito de minério se instalou na terra, no ar, nas folhas das hortaliças, nas frutas e até nos tanques de peixes. Tudo parou de se desenvolver. Só não deixou de crescer a força da luta pela justiça. Há quatro anos, a mineradora se mantém inoperante, e um escritório da Inglaterra representa a comunidade na justiça inglesa. Mas sabe aqueles filmes que o monstro grita “eu voltarei” no final, entre a vida e a morte? Esse grito ecoa nas promessas do governo em revitalizar e aumentar a mina, juntando a ela uma estrada de ferro para escoamento do minério e quiçá uma siderúrgica. Oxalá essa promessa seja somente uma ameaça e não vá para a frente.
Como esse, diversos outros enredos “fantásticos” estão à disposição para Globos, SBTs, Netflixes e quem quiser. Basta olhar além do óbvio. Ou você dirá que não soube do casal de ambientalistas que, defendendo seu território e as bacias hidrográficas da Chapada sofreu um atentado a tiros e teve sua casa, pousada e posto da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica destruídos, foi forçado a fugir na mata à noite e há quatro meses não põe os pés em casa? Isso é na Chapada também. Tem o adolescente que morreu soterrado pela montanha de terra que se formou após a abertura não cuidadosa de uma estrada para passagem de pás e peças de aerogeradores e caminhões de uma conhecida empresa eólica. Esse enredo de injustiça também não é de seu conhecimento?
Saiba que temos enredo para todos os (des)gostos. Basta olhar para além dos pontos turísticos. Nessa nova dinâmica social, em que as histórias na Chapada, antes cheias de magia de negro apaixonado que foge dos capangas do pai da amada sinhazinha e se salva pulando montanha abaixo com guarda-chuva são substituídas por terrorismo socioambiental sustentado pelo poder público. O que mantém a Chapada esperançosa, mas de olhos abertos, é a vontade de ver um desfecho feliz.





Ananda Azevedo | Fotos: Ananda Azevedo e Casa da Toca do Lobo destruída: acervo pessoal Alcione Correa / Estrada com cruz: Rafaela Araújo/Folha de São Paulo