Há poesia no fogo?

Rito. Renovação. Ciclo. Todas essas palavras já serviram para designar um renascimento dos espaços naturais da Chapada Diamantina, especialmente o cerrado, os gerais e os campos rupestres, alguns biomas desse mosaico chique que é a Chapada, por meio do fogo natural. Chega a ser poético e emocionante ver um campo de flores lilases e brancas do candombá surgindo na serra ainda acinzentada pouco tempo após um incêndio. É como se fosse um desenho paciente de um ecossistema em harmonia. E talvez essa palavra, harmonia, seja uma chave muito importante para entender o estado atual desse “amanhecer” poetizado que já se perdeu em interesses, por assim dizer, menos líricos. 

O fogo que hoje lambe as serras tem muito menos de renovação, e mais da displicência e interesse do capital sustentando o desespero de ambientalistas, produtores  da agricultura familiar e comunidades tradicionais. Não é coisa de dizer “não preveniu, não cuidou”, nem é disso que se trata. Essa mão invisível virou de vez as costas para o planeta e o que se testemunha atualmente é o calor escaldante, que produz uma seca severa, tudo isso com o pano de fundo de um El Niño com alto poder destruidor, que já se materializa em cinza, em chamas e faz ecoar um silêncio constrangedor sobre espaços naturais de extrema beleza como o Mucugezinho, o Pai Inácio, Lençóis, os gerais, o belíssimo Vale do Cercado, só para citar os mais conhecidos.

A Chapada Diamantina tem uma importância histórica, ocupa 15% do território baiano e entre seus 24 municípios estão abrigadas três das principais bacias hidrográficas do estado: Paraguaçu, Jacuípe e Rio de Contas. Entre outras regiões, está citada na Constituição Estadual da Bahia, no seu artigo 216, que versa sobre a proteção ambiental. Está destacada ali como patrimônio estadual, cujo uso tem que ser feito de acordo com a lei, especificamente dentro de condições que permitam o manejo adequado do meio ambiente, enfatizando em seguida, que trata não apenas dos recursos naturais, mas também históricos e culturais. Dentro do território, está um quarentão de respeito, o Parque Nacional da Chapada Diamantina, que abriga 152.000 hectares protegidos pelo seu decreto de criação, em 1985. Tudo isso além das mais de 20 unidades de conservação, entre as reservas na esfera estadual, municipal e privadas (RPPN).

Todos esses dados reforçam a relevância da Chapada, é inegável que esse ecossistema protegido por comunidades tradicionais faz parte de um dos espaços naturais mais importantes para a vida no estado da Bahia. No entanto, falando de fogo, o que presenciamos há mais de uma década é a gradativa autoria dos incêndios florestais passando dos eventos naturais (raios, por exemplo) para as mãos do homem. Atualmente, assustadores 95% dos focos de incêndio são causados por origem humana. 

Como intensificamos o “progresso”, mas retrocedemos em conhecimento, os incêndios provocados pelo homem não respeitam as épocas revitalizadoras da natureza, aquelas em que as cinzas seriam adubo natural potencializando a fertilidade e provocando a germinação. Não, o homem escolhe por interesse ou escolhe não se interessar. Explico. Do ponto de vista do capital, se for interessante usar o fogo em larga escala para destruir evidências de áreas e animais protegidos, não interessa a época. Ou se urge a criação de uma nova área de pastagem para a agropecuária em larga escala (entenda que aqui não se fala da criação de subsistência ou pequenas criações), não interessa a época. E que tal liberar espaço para aerogeradores, data centers, lavras minerárias? Não interessa a época, está tudo liberado.

Assim, incêndios florestais no auge da seca, com El Niño na porta, não serão evitados. Lembra do cerrado, das áreas de savana, onde o fogo pode ser agente de renovação? Esses também, ainda que com plantas adaptadas, suas cascas mais grossas e raízes profundas criadas para o rebrote não aguentam o fogo na hora errada. O desequilíbrio do regime de chuvas e de fogo destruiu os ciclos naturais. Pois a Chapada Diamantina tem todos esses biomas, os resistentes como o cerrado, mas também as florestas mais úmidas, como a Mata Atlântica, que não é adaptada historicamente para a queima e onde o fogo causa uma destruição irreversível.

E é nessa chapada-mosaico que vem sendo denunciado um fogo que desprotege o solo, assoreando rios e secando nascentes cruciais para a recarga hídrica não apenas do território. A quebra do ciclo natural, o desequilíbrio provocado pela fúria dos empreendimentos de grande porte na região e a incidência constante do fogo criminoso são ameaças ambientais de severidade nunca vista, e que na atualidade se somam aos eventos climáticos cada vez mais extremos. Já não se sabe quem veio primeiro. 

Em setembro de 2015, mais de nove mil hectares foram consumidos em queimadas dentro do Parque Nacional, informa o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As chamas atingiram diversas cidades e vales, como os famosos Vale do Pati e Vale do Capão. Dez anos depois, em março de 2025,um incêndio de grandes proporções registrou chamas de até cinco metros atingindo áreas como o Mucugezinho, a Serra dos Brejões, o Morro do Pai Inácio e regiões circunvizinhas. Àquela altura, dados oficiais colocavam a Bahia como o segundo estado com mais focos de incêndio por um período de 48h, conforme o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Nesse mesmo ano, outro episódio registrou a perda de 796 hectares (711 na APA Marimbus-Iraquara e 85 dentro do parque nacional), tendo iniciado às margens da BR 242, com grandes riscos também ao fluxo de veículos pesados e de passeio que trafegam diariamente pela via. Esses incêndios foram investigados, apesar de se entender que a origem seja humana, não há conhecimento sobre o desfecho das investigações quanto à responsabilização dos culpados. 

Para não ficar apocalíptico demais, conquanto a gravidade do tema justifique, sim, há planos de manejo. Envolvem um Plano Operativo de Prevenção e Combate a Incêndios do Prevfogo (Ibama) para o parque, e associação com as brigadas voluntárias da Chapada. De acordo com o ICMBio, durante o chamado período crítico (julho a dezembro), são contratados brigadistas temporários e o monitoramento é reforçado. Há campanhas educativas da Caravana Bahia sem Fogo, do Governo do Estado, que circulam anualmente. O INPE produz informações científicas por meio do Programa Queimadas e o Ministério do Meio Ambiente emite regularmente o Boletim do Fogo, cuja última versão divulgada data de 7 de setembro deste ano e não mostra nenhuma operação federal em andamento na Bahia no momento da sua emissão. 

O segundo semestre nas serras da Chapada, então, segue em alerta. Historicamente, setembro é um mês que registra muitos incêndios florestais e com danos graves para o meio ambiente e as comunidades chapadeiras. No entanto, o fenômeno climático do El Niño, que promete elevar os níveis das temperaturas, baixar drasticamente a umidade e prolongar a estiagem ainda neste ano, pedem mais e mais atenção. Será que os planos de manejo estão realmente adequados? Conseguirão os brigadistas voluntários dar conta de tudo que pode estar por vir? E os órgãos estaduais e federais realmente comprarão uma briga que envolve mais do que apagar os incêndios, mas garantir modelos eficazes de interação com a natureza partindo dos princípios tradicionais a serem reaprendidos com as comunidades e povos originários da Chapada? Muitas perguntas que evocam as nossas responsabilidades e o nosso olhar para a única forma real de lidar com o fogo que consome o território: a prevenção. 

Enquanto isso, faz-se necessário responder à provocação do título deste desabafo: a poesia ficou lá atrás, junto com o fogo que curava; agora o thriller de terror envolve um monstro que olha para a natureza pensando em “recursos”, maleável, sorrateiro e sagaz como uma labareda.

Ah, antes de finalizar: no último domingo, 13/9, um incêndio florestal de grandes proporções atingiu a Chapada, mais precisamente na região de Lençóis, algumas regiões de Palmeiras, avançando para os limites do Parque Nacional. Vamos fortalecer as Brigadas Voluntárias, fazendo doações e emanando boas energias para um combate eficaz e rápido!

Ananda Azevedo | Foto: Montagem OCA com imagens de Thamires Costa/pexels e Daniel dos Santos Gonçalves/pexels

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