A Luta entre o Grande Olho que Tudo Vê e o Grande Outro que Desmancha a Solidez da Vida

Por Claudio Dourado de Oliveira

Em 2018, conheci um antropólogo venezuelano chamado José Quintero que me apresentou um pequeno livro, de autoria própria, intitulado ‘Fazer comunidade – notas sobre território e territorialidade a partir do sentir/pensar indígena (povo Añuu) na bacia do lago Maracaibo’. Além das horas e horas de escuta, durante aquela semana, a publicação, já traduzida para o português, me possibilitou um mergulho que até hoje me surpreendo com a profundidade de suas reflexões.

Mesmo já com o diploma de antropólogo, até aquele momento, via a antropologia como uma disciplina inalcançável, pelas referências desses profissionais que eu tinha no meu país – Brasil. Quintero apresentou-me uma esperança de ver e viver o mundo, na perspectiva do que ele teve pelos povos das águas do Maracaibo. Lá, aquele arraial vê o mundo como sujeito vivo, capaz de procriar vida, incluída a humanidade.

Os Añuu nos apresentam a condição de pertencimento ao mundo e nunca de possessão do mundo, pelos humanos, o que permite sustentar a fundamentação dos limites territoriais em virtude da possibilidade de desdobramento da cosmovisão, do fazer próprio da comunidade e não como possibilidade de acumulação de espaços, em relação ao fazer do lugar.

Naquele território, as constelações refletidas no espelho d’água da lagoa formam uma imagem aquática do ‘olho’ do mundo, como corpo feminino, reflexo do sujeito vivo; e a comunidade como parte deles, expande ou retrai assim que surge uma nova família, com as casas sobrepondo o reflexo das estrelas. Com possibilidade de erguer uma nova comunidade sempre que as casas encobrirem todos os astros, vistas da porta do líder. A aglomeração das casas que sobrepõe o espelho do céu indica a capacidade de suporte dos recursos necessários para a vida, o que chamamos de uso sustentável da natureza.

Nessa mesma perspectiva aprendi com o uso dos Gerais, que se estende pela Serra do Espinhaço, no Brasil. Naqueles planaltos, entre Minas Gerais e Bahia, os solos arenosos recolhem água das chuvas e distribuem pelos rios. Mesmo local onde camponeses residem com seus rebanhos numa temporada do ano, na seca. O regime de chuva marca a retirada dos animais e o espelho d’agua abre restrição ao território; da mesma forma as comunidades coletoras de sempre viva, sobe esses Gerais durante três meses do ano, entre 25 de junho a 25 de setembro, compartilhando o mesmo território com os criadores, embora com interesses distintos, em ambos os casos a retirada é marcada com o manejo do fogo de preparação para as trovoadas. O fogo toca levemente a lambujem permitindo o gozo de uma nova vida que ressurge nas primeiras chuvas.

Fora dessa temporada, a vida flui nas grotas e regatos com os cafezais e plantio de cana de açúcar, acessando as montanhas apenas para retirar plantas e minerais, seja para confeccionar suas casas, ou para a cura física e espiritual. O grande olho do mundo consiste nessa possibilidade de reprodução do fazer com suas próprias tecno-economias e cosmovisões; de tal maneira que as linhas de expansão da onda territorial de um povo sempre estão sujeitas às linhas de expansão de outros, por pertencer a distintos lugares do mundo, na construção territorial do cosmos visível e vivível por todos. A real possibilidade de criar um mundo onde certamente cabem todos os mundos.

Foto: Bruno Moraes

Esse contexto relacional orienta todo processo de territorialização como expressão da imagem do mundo, o particular lugar de ver que permite a cada povo uma visão coletiva do que será seu território. De tal forma, a imagem do mundo apresenta-se como um ‘Grande Olho’ que vemos e que nos vê, sintetizando o imaginário social para o processo de construção territorial.

Do outro lado, em marcha contra o Grande Olho que tudo vê está o ‘Grande Outro’, referência feita por Mark Fisher em o ‘Realismo Capitalista’, na qual esse Grande Outro consiste em consumir todas relações públicas em propaganda, figura virtual na qual se requer que acredite no que nenhum indivíduo poderia acreditar. Sintomas que, sem exagero algum, pode ser caracterizado como “stalinismo de mercado”, mas que, por ironia, o capitalismo tardio repete justamente na valorização dos símbolos do resultado, em detrimento do resultado efetivo.

De frente ao visual da Chapada Diamantina, já na ponta norte da Serra do Espinhaço, outdoors que entrelaçam o retorno à natureza e a transição energética. Uma salvação para as contradições do mundo, mas que, ironicamente, uma cega e a outra ofusca boa parte da sociedade. O mito de retorno à natureza, uma tendência de desterritorialização vigorante no Chapadão, quiçá onde ainda resta o Olho Grande no mundo que incide em abrir loteamentos com lobby ecológico, mas que não evidencia um processo de consciência socioambiental e reforça a expressão do atual status de fuga das abarrotadas cidades para viver em espaços rurais, reproduzindo as mesmas condições das áreas que se escapa. Cenário de ação política que se situam os recursos da natureza como meras mercadorias, consolidando práticas ecocidas globais em um mito totalizante.

A transição energética não é diferente, consiste no avanço das fronteiras extrativas predatórias promovidas pelos conglomerados mineroenergéticos, que se expandem mediante conflitos e disputas em terras. O pior, apresentada como a única salvação para as mudanças climáticas. Mas que provoca uma asfixia territorial. Conceito apresentado por Ricardo Junior de Assis Gonçalves em a ‘Rede global extrativa de terras raras: asfixia territorial no Brasil’.

Cegas e agonizantes, sem ter para onde correr, reexistem as comunidades em meio a uma mistura de informalidade casual e autoritarismo silencioso. Sob efeito dos consensos globais, burocracias intensificam em tendências neoliberais. Um mistério – a volta da burocracia como um retorno do reprimido, ironicamente reemergindo no coração de um sistema que jurou destrui-lo.

Enfim, o que isso tem a ver com a especulação mineroenergética e a imobiliária? O campo. Aquele lugar do ócio que a revolução industrial sucumbiu, passou a ser também o lugar da depressão e do desejo, assim como as cidades, mas sem passar pelo tédio que a indústria despertou. Nas cidades, o neoliberalismo aprendeu primeiro que a esquerda a responder essas demandas do tédio, consumindo o sujeito político coletivo e entregando a desesperança.

E o campo? Tornou-se o lugar da fuga. Mas também entregue ao capital e às frustações, como afirma o próprio (Fisher, 2020) a escolha individual e a dominação política conduziram os sujeitos democráticos a esse lugar dispostos a se submeter à tirania política ou ao autoritarismo, justamente porque estão absorvidos em um domínio de escolha e satisfação de necessidades que erroneamente confundem com liberdade.

A solidariedade deu lugar a todos seus antônimos. As fronteiras foram rompidas e titubeamos todos em um mesmo país, chamado capitalismo. Tudo bem! No capitalismo tudo que é sólido se desmancha em relações públicas; uma crise da eficiência simbólica, afinal “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, não temos nada para pôr no lugar.

A cegueira, abordada anteriormente, pode representar o auge da depressão. O mesmo outro grande que ofusca as estrelas perde de rumo as constelações. Sem destino, perambulamos no escuro para sobreviver dia após dia, cujos efeitos são sentidos como degradantes e exaustivos. Isso nunca chegou a acontecer, as reformas neoliberais continuam impopulares. O que se conseguiu foi convencer as pessoas de que o mundo é assim, e que não há nada que possa ser feito. É difícil enxergar como as lutas podem ter sucesso sem fazer parte de um conjunto. Temos que recuperar a ideia de que é necessário vencer a luta hegemônica na sociedade em diferentes frentes ao mesmo tempo. E às pessoas da cidade, o campo exclama: ‘a ti compete a solidariedade!’

Claudio Dourado de Oliveira é antropólogo, mestre em Ciências Ambientais e educador social pela Comissão Pastoral da Terra.


Foto destaque: Claudio Dourado

Referências:

FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Tradução Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato, Maikel da Silveira. 1. ed. São Paulo: Autonomia Literária, 2025.

GONÇALVES, Ricardo. Rede global extrativa de terras raras: asfixia territorial no Brasil, 2026.

QUINTERO, José Angel. Fazer comunidade: nota sobre terra e território a partir do sentipensar indígena na bacia do lago Maracaibo – Venezuela. Tradução Isabel Perez. Editora Deriva. 2018.

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