“Terra rara é o chão que pisamos”: mesa na Fligê vira espaço de resistência contra a destruição da Chapada Diamantina
Encontro no Centro Cultural reuniu a pesquisadora Gislene Moreira e o bispo Dom Vicente de Paula para debater mudanças climáticas, mineração e o futuro das comunidades do território.
A tarde no segundo dia da Feira Literária de Mucugê (Fligê) foi atravessada pelo debate “Terras raras, águas sequestradas e palavra como fonte”. No Centro Cultural, a mesa reuniu a escritora, professora e pós-doutora em transição energética e mulheres, Gislene Moreira, e o escritor, arcebispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora e membro da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB, Dom Vicente de Paula, com mediação de Elton Becker.

No centro da discussão, informações e previsões sobre os avanços das mudanças climáticas e seus impactos na sociedade, tema que promoveu um encontro entre espiritualidade, literatura e questões socioambientais. O convite foi para uma escuta atenta às vozes dos territórios e, especialmente, das pessoas que cuidam das águas, terras e serras em diferentes municípios da Chapada Diamantina.
Foto: Ananda Azevedo
Gislene Moreira começou trazendo a força histórica da palavra, e de como as pessoas nas comunidades vencem a colonização todos os dias nas lutas cotidianas. Carregando um coforongo – ou caveira de boi -, explicou como a palavra pode transformar o nosso futuro. O crânio em suas mãos veio como representação folclórica da resistência das comunidades. Segundo a professora, a literatura e o imaginário são fundamentais para a construção do que já se sabe e dos novos olhares e perspectivas sobre mudança climática e transição energética.
Já Dom Vicente de Paula, ao destacar o cuidado com o planeta, evocou aspectos espirituais, destacando que “a Chapada Diamantina é um paraíso, uma arquitetura divina que deve ser protegida”. Com sua vivência de combate às injustiças sociais e atuação em áreas destruídas pela mineração, Dom Vicente é autoridade para falar sobre proteção ao meio ambiente e comunidades.

Alerta sobre os grandes empreendimentos
Ambos colocaram em pauta os interesses dos grandes empreendimentos em explorar recursos naturais sem preocupações com as populações locais, como megaempreendimentos de exploração mineral, agronegócio e de produção de energia por meios renováveis. Diversos problemas socioambientais foram elencados, como problemas psicológicos, de saúde, desarranjos sociais e a possibilidade de desastres ambientais, a exemplo do rompimento de barragens. Isso tudo antes de também explicar o quanto esses projetos promovem um verdadeiro sequestro da água, que vem ficando cada vez mais escassa nas serras e comunidades da Chapada. O alerta uníssono foi sobre a necessidade de debater se existirá um mundo para as próximas gerações.
Gislene celebrou a resistência, citando comunidades da Chapada que não estão nos roteiros turísticos, mas estão na rota de grandes projetos, como a Bocaina (Piatã), a Serra da Chapadinha (Itaetê, Mucugê e Ibicoara), a Tiririca de Cima (Ibitiara), entre outras. O exemplo mais forte vem do projeto de ferro briquetado para produção de aço “verde” previsto para Piatã, parado há quatro anos por resistência de uma comunidade quilombola, com processo judicial em andamento na Suprema Corte da Inglaterra.
No caso da Serra da Chapadinha, que ganhou grande repercussão, a pesquisadora apontou como “ponta de algo muito maior”, defendendo a suspensão de todos os projetos nas serras enquanto não houver estudos suficientes que comprovem que as populações não serão afetadas de modo irreversível. Para ela, o planeta é a verdadeira terra rara. “No universo é possível encontrar diamante, ouro, mas será que vamos achar árvores depois que o ser humano tiver destruído o planeta?”, questionou a uma plateia atenta e participativa.
No caso da defesa das águas, Dom Vicente foi categórico ao alertar que não só a Chapada pode “morrer de sede”, mas também Salvador e a região metropolitana, caso os grandes projetos não sejam interrompidos. Como forma de mostrar a importância do assunto, disparou: “Eu prefiro defender a água da Chapada do que a própria religião”, disse o bispo.
O ditado popular dos novos tempos diz que “a Chapada vai nadar em dinheiro e morrer de sede”. Para alertar sobre a necessidade de reverter essa previsão cada dia menos distante, manifestantes dos movimentos socioambientais da Chapada Diamantina estiveram presentes e engrossaram o coro dos que defendem a soberania hídrica do território.

Com faixas voltadas ao tema, subiram ao palco e mostraram que a Chapada vem se organizando em prol da defesa dos seus espaços e recursos naturais.
Foto: Ananda Azevedo

Toda a discussão se encerrou com a reflexão sobre como os grandes empreendimentos ameaçam a Chapada, e de como a palavra, usada para justificar a corrida energética e minerária vem sendo usada como narrativa para justificar a destruição dos povos do sertão, que cuidam dos recursos naturais e nos mantém vivos há séculos.
Ananda Azevedo | Fotos: Ananda Azevedo