Por OCA e Conselho Regional de Brigadas da Chapada Diamantina
Nota Pública sobre os incêndios na Chapada Diamantina
Onde há fumaça, há crime. Quem são os responsáveis pela destruição?
No último dia 27 de março, mais um incêndio de grandes proporções ocorreu na Chapada Diamantina. Moradores e brigadistas suspeitam de fogo criminoso. O que mais chamou a atenção nas imagens divulgadas em redes sociais foi o tamanho do foco desde o início da identificação das chamas. Em apenas duas horas depois da detecção do foco, o incêndio já era considerado fora de controle. O fogo foi declarado extingo três dias depois, mas a população segue tensa e temendo novos focos.
O rápido rastro de destruição foi atribuído pelas autoridades às condições extremas de seca e intensidade dos ventos na região. Mas especialistas alertam que “esta época, era o tempo das chuvas. Os incêndios só começavam em agosto, setembro”, diz a bióloga Iara Macêdo em entrevista ao Jornal A Tarde. Para além das alterações provocadas pelas mudanças climáticas, o caso do fogo na região é antigo.
Homero Vieira, brigadista com mais de 30 anos de experiência em combate ao fogo, está cansado da falta de respostas. O Velho Urso, como Homero é tratado pelos brigadistas voluntários, acredita que o caso demanda uma ação de responsabilidade pública e administrativa. “O fogo começou na BR 242, em área próxima à sede dos Bombeiros da Região e dentro de uma APA. É inadmissível que tome essas proporções sem que ninguém seja responsabilizado”.
Homero lembra que a gestão do INEMA, responsável pela gestão da Área de Proteção Ambiental (APA) Marimbus-Iraquara, sequer apareceu no local para dar alguma assistência às brigadas. Nenhum carro-pipa, por exemplo, foi disponibilizado pelas prefeituras. Para o Conselho Regional de Brigadas da Chapada Diamantina, falta estrutura, equipamentos e vontade para punir os culpados. Em um ano foram mais de 150 focos combatidos na região. Em entrevista ao Chapada News, o tenente-coronel Jansen, do Corpo de Bombeiros, admitiu que 95% dessas ocorrências são provocadas por mãos humanas. Mas não há notícias sobre investigações e responsabilizados. Também não foram dadas informações sobre a ação de peritos criminais especializados em fogo atuando na região.
Estudos sobre o fogo e crimes ambientais mostram que a falta de fiscalização e punições é um dos principais fatores que contribuem para o aumento de queimadas. Também indicam que há uma relação direta entre incêndios florestais e o avanço de megaprojetos econômicos. Mas no caso específico da Chapada Diamantina, impera o silêncio e a impunidade. A quem interessa a repetição da tragédia? Quem se beneficia do fogo na Chapada?
Segundo o ICMBio, só na área do parque o incêndio atingiu 85 hectares. Já na APA, brigadistas estimam que foram 300 hectares queimados. E destacamos que a tragédia poderia ser muito maior, não fosse a ação conjunta de brigadas voluntárias de vários municípios (BVCSJ e BVVC de Palmeiras, BVL e BRAL de Lençóis, e brigadistas da BV Riacho do Mel de Iraquara, e de Seabra), que controlaram as chamas durante as madrugadas. Dos órgãos oficiais, atuaram o ICMBio e o Corpo de Bombeiros.
Apesar da extinção deste episódio, o fogo avança em várias outras localidades da Chapada, como a Estiva de Lençóis, Andaraí e Jacobina na Chapada Norte. As comunidades e o frágil ecossistema das serras do sertão seguem sob alerta e ameaça, enquanto esperam por respostas.