Quem somos

Projeto realizado por: Jovens de oito comunidades espalhadas pelos Territórios de identidade da Chapada Diamantina, Piemonte do Paraguaçu, Recôncavo e Bacia do Jacuipe. Unidos pela luta social, pela preservação das águas, estamos engajados na defesa da nossa casa comum. Nos dedicamos a preservar as histórias, as culturas e as identidades dos povos das águas, do pantanal, das caatingas e das serras.

Oi, sou o rio Paraguaçu, o rio Santo Antônio, o rio Utinga, o rio do Ligeiro, o rio Saracura, o rio Jacuípe, o rio Capivari, o rio da Iúna, o rio Cochó, a cachoeira do Agreste, a cachoeira do Ferro Doido, o poço de Juraci. Sou as nascentes e os riachos secos. Carrego em mim as memórias dos que me habitam, dos encantados que dançam em minhas águas, dos que me reverenciam e dependem do meu curso para viver. Sou mais que um caminho de água, sou saudade, sou identidade, sou cultura, sou vida.

Nós, jovens comunicadores das águas, filhos e filhas dessas terras, das comunidades rurais, ribeirinhas, pantaneiros, indígenas, camponesas, quilombolas, caatingueiros, ficheiros e assentados da reforma agrária, somos parte dessa história viva. Crescemos às margens de rios que são fonte de sustento, de aprendizado, de brincadeiras e de ritos sagrados. Aprendemos com os nossos ancestrais sobre a importância de respeitar e proteger as águas, pois sabemos que sem elas não há vida. Hoje, vemos com preocupação o que está acontecendo com as nossas águas e com as comunidades que dependem delas.

As agressões aos rios da Bacia do Paraguaçu se intensificam: desmatamento, lixões a céu aberto, inexistência de saneamento básico, mineração, barragens, contaminação por agrotóxicos e outras substâncias, apropriação privada das águas, o uso descontrolado dos recursos hídricos para grandes empreendimentos e restrição de uso. Cada intervenção sem respeito aos territórios tradicionais e sem consulta às comunidades é um golpe contra a manutenção das nossas existências.

Na bacia do Paraguaçu as práticas de divisão, especulação e venda de terrenos nas suas margens tem nos afastado do rio. A transformação da água em mercadoria vem com cercas, cancelas, portões e cadeados que nos impedem de transitar e nos relacionar com lugares que fazem parte da nossa história e vida em comunidade. Assim, os banhos de cachoeiras, os passeios na beira do rio, os domingos em família e em comunidade, as práticas religiosas que significam muito para nós tem se tornado escassas. Isso nos leva a questionar: a quem o rio pertence? Pode haver dono de algo que existia muito antes da chegada dos seres humanos? E as leis ambientais estão sendo respeitadas?

A privatização da água e a apropriação das terras ribeirinhas por interesses externos representam uma nova forma de colonização, onde a ganância converte um bem comum em mercadoria e converte os povos tradicionais em pobres. Esse processo não apenas exclui as comunidades que historicamente cuidam dessas águas, mas também gera violências sistêmicas, destruindo ecossistemas e rompendo os laços entre as pessoas e a natureza. A água não pode ser propriedade de poucos – ela pertence à Terra e a todos os seres vivos.

Nos últimos meses, percebemos a diminuição das águas do rio Utinga devido ao seu uso desenfreado para a plantação de banana e outras monoculturas. Esse uso excessivo afeta a biodiversidade local e compromete o abastecimento de água das pessoas que moram e sobrevivem dessas águas. A região banhada pelo rio enfrenta uma crise hídrica gigantesca, tornando urgente a necessidade de governança das águas.

A comunidade de Iúna, pantanal da Chapada Diamantina, cercada pelos rios Santo Antônio e Utinga, viu sua realidade mudar drasticamente ao longo dos anos. Antes, as pessoas lavavam roupas, tomavam banho, bebiam e cozinhavam com sua água, além de garantir a sustentabilidade familiar por meio da pesca e da agricultura. Hoje, o rio secou, e com ele surgiu a insegurança hídrica e práticas sistemáticas de produção de morte onde ainda tem vida.

As águas não podem ser tratadas como mercadoria. Elas são um bem comum e direito de todos e todas. A luta pela preservação dos nossos rios é também uma luta pela soberania dos povos, pela permanência das comunidades em seus territórios e pelo respeito aos saberes ancestrais que sempre garantiram o equilíbrio da vida.

Diante desse cenário, reafirmamos nosso compromisso: seremos guardiões das nossas águas! Utilizaremos nossa voz, nossas imagens, nossas palavras e a força da comunicação popular para denunciar as ameaças, visibilizar as resistências e fortalecer as redes de apoio.

Chamamos as juventudes, os movimentos sociais, as organizações comunitárias e toda a sociedade para unir forças na defesa das águas e dos territórios. Que possamos construir pontes entre as lutas, fortalecendo a governança das águas com participação popular, com respeito às culturas e saberes tradicionais, e com a certeza de que um rio livre e vivo significa um povo forte e resistente.

Nossos rios clamam por justiça. Nossas juventudes clamam por futuro. Nossa história segue fluindo, assim como as águas que nos movem.

Por rios vivos, por territórios livres, por um futuro com água para todos e todas!

 

 

Assinam este manifesto:

 

-Jovens Comunicadores das Águas – Construindo Pontes para a Governança das Águas na Bacia do Paraguaçu

-ArteQuilombo

-Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Iúna – Lençois – BA

-Associação dos Pequenos Produtores Rurais dos Povoados de Mandaçaia, Caraíbas, Lagoinhas e Criolas – APPRMCL – Iaçu – BA

-Associação Comunitária de Agricultores(as) Familiares, Produtores(as) Rurais, Pescadores(as), Artesãos(ãs) da Vila São Roque de Iaçu – BA

-Associação Comunitária Amigos de Cutia – Boninal – BA

-Comissão Pastoral da Terra – CPT

-Cooperativa de Trabalho, Consultoria, Pesquisa e Serviços de apoio ao Desenvolvimento Rural Sustentável – Coopeser – Iaçu – BA

-Escola Família Agrícola Mãe Jovina – Ruy Barbosa – BA

-EduCampo: Educação e Comunicação nas Escolas Família Agrícola

-Grupo de Simpatizantes das Irmãs Catequistas Franciscanas

-Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA

-Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra – MST

-Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Baixa Grande – BA