Dos saberes ancestrais aos caminhos de luta:
A resiliência de Sarah Payayá
Por Érica Araújo
Revisão Joana Horta
Fotos Ananda Azevedo
Com espírito alegre, Sarah Goes da Silva Payayá, 39 anos, é uma mulher marcada pela luta por terra e território na Chapada Diamantina, uma missão que atravessa gerações. Moradora da Vila Ecológica Cotiguara, no povoado de Capão do Pinho, interior do município de Morro do Chapéu, mesmo antes de se compreender como mulher indígena no sertão da Bahia, buscou no aldeamento um caminho para a resistência às opressões do sistema vigente. A Vila Cotiguara, da qual Sarah é uma das fundadoras, é conhecida pelas dinâmicas coletivas e de respeito à natureza, com o desenvolvimento de atividades como o ecoturismo, a apicultura e a agricultura familiar, sendo um dos primeiros assentamentos jovens e agroecológicos da política de Reforma Agrária no País.
Sempre em busca de alternativas que proporcionem algum respiro para a difícil realidade sertaneja, Sarah é também cineasta, cantora, compositora, atriz, trabalhadora rural, ativista indígena, defensora do meio ambiente e mãe de dois meninos, João e Joaquim. Ao pensar sobre as relações de resistência aos abusos em seu território, ela compartilha suas vivências e desafios durante a sua jornada pela busca das suas raízes ancestrais e a luta pelos seus direitos.
Da Ybiêy Payayá ao audiovisual de resistência
Artista do mundo, foi durante o isolamento social recomendado para o enfrentamento da pandemia Covid-19 que Sarah precisou fincar seus pés em sua roça, no Morro do Chapéu, em busca da autonomia que a agricultura proporciona. A partir daí, muitas mudanças começaram em sua vida. Em 2020, Sarah ingressou na Escola Livre Audiovisual da Chapada Diamantina (ELA), um projeto de formação audiovisual virtual, que articula mulheres, jovens, adultos, lideranças camponesas, de dezenas de municípios, em especial na Chapada Diamantina e entorno.
Embora as dificuldades tecnológicas fossem grandes, Sarah enxergou na ELA uma oportunidade de seguir contribuindo com os movimentos sociais, culturais e camponeses por meio da produção audiovisual. “A pandemia deixou a gente bastante trancado, mas temos amigos e parceiros que mandavam notícias do mundo novo e ficamos sabendo que não precisávamos ficar tão isolados, que poderíamos fazer algo que fortalecesse o nosso movimento, tanto cultural quanto agrícola. Nessa época estava plantando roça e vinha à cidade de Morro do Chapéu pra feira. Aí veio esse curso, que eu vejo que é um mecanismo. Uma forma de lutar pelos direitos sociais.”, comenta com entusiasmo.
Ao participar dos cursos oferecidos pela ELA (Escola Livre de Audiovisual da Chapada Diamantina), ela pôde perceber a força do coletivo como fundamental em momentos difíceis como foi o período da pandemia, e o impacto da colaboração mútua, tanto no campo cultural quanto no social. “Eu vi a articulação funcionando (…) vejo que cada um na sua luta foi se fortalecendo como povo do campo, que geralmente não tá perto dessa cultura do audiovisual” relembra Sarah, que participou de três formações ELA.
Durante o processo de pesquisa de campo para a produção da peça audiovisual “Oré Payayá: Nós somos todos Payayá”, Sarah se aproximou de outra cursista, Edilene Payayá, de Utinga, município vizinho a Morro do Chapéu. Para ela, o sentimento de pertencimento ao povo Payayá sempre foi claro desde a sua infância, devido às muitas histórias contadas pela sua avó. “Sempre escutei as histórias da minha avó pega no mato e disso temos como resultado aquele caboclo, aquele indígena, que recebeu a ameaça da colonização. Eu sempre soube que sou indígena. O sentimento já existe dentro do coração. Mas a partir do curso na ELA, trabalhando com Edilene, na pesquisa, nos descobrimos como parentes, vindos da mesma região, onde minha mãe nasceu, no Rio Preto de Morro do Chapéu. A partir das falas e desse encontro eu consegui escutar essa história dentro e fora de mim.”
Para além de um encontro entre pessoas de uma mesma família, este também é um encontro de pessoas que compartilham uma cosmovisão. O audiovisual Payayá que brota com a ELA é revelador de Yapira. Em tupi-guarani, “yby”significa “terra” ou “chão que pisa”. Yapira representa a formação territorial, a caatinga como lugar de memória e luta por autodeterminação e enfrentamento ao projeto “modernizador” e colonizador.
Por sua grande extensão territorial e riqueza paisagística e histórica, Morro do Chapéu se destaca pela produção agrícola e por sua flora e pontos turísticos paisagísticos e históricos, resguardando lugares como o Monumento Natural da Cachoeira do Ferro Doido, a Vila do Ventura e a Gruta dos Brejões. Na última década, a cidade tem se tornado um importante polo para a expansão do Complexo Eólico Morro do Chapéu Sul I e II, capitaneado pela empresa Casa dos Ventos. Expansão essa que está mudando a realidade e o modo de vida das comunidades.
A transição energética, termo tão utilizado nas reuniões técnicas de meio ambiente, soa como algo desconhecido para Sarah. “Nunca escutei esse termo, é a primeira vez que escuto esse termo transição energética”, confessa. E completa: “Mas quando eu penso sobre isso, penso no povo que quer seguir gerando energia, com um novo modelo, pensando que não vai afetar o povo. Mas afeta!”.
As serras do interior baiano, antes cobertas por centenas de espécies endêmicas, vegetais e animais, e cultivadas pelas comunidades tradicionais, com uma rica variedade de alimentos como feijão, arroz, milho, aipim, agora dão lugar às grandes torres de energia eólica. As gigantes de ferro se espalham por entre os gerais, as lavouras e as lembranças de infância, sendo vendidas como “avanço” e “progresso sustentável”.
Para ela, o futuro “sustentável” chegou como uma continuação — e agravamento — da história de destruição que o seu povo já conhece. Sarah se recorda do tempo em que trabalhava com turismo na região. “Nos procuravam pra fazer um reconhecimento do território. Sabíamos que eram pessoas da eólica. Inclusive, sempre tive falas bastante irritantes com todas essas pessoas porque nunca conseguiram me convencer de que era uma energia limpa. Desde então acompanho esse trabalho e ainda tento enxergar onde é que está a limpeza”, relembra.
De acordo com Sarah, por mais de 25 anos, muitos dos pequenos agricultores que moram na região do Parque Estadual de Morro do Chapéu solicitaram uma estrada para escoar a mandioca e a farinha, produtos advindos da agricultura familiar, para serem comercializados na feira livre, mas sempre escutaram negativas do Estado, sob o argumento de que aquele local era uma área de preservação ambiental. Mas logo após o início das operações das Eólicas, as estradas então chegaram sem nenhuma complicação. “Isso é muito absurdo e as pessoas sofrem, elas têm esse sentimento de pensar que esperaram 25 anos pra passar um barro na estrada.” Desabafa.
A Serra da Babilônia, um dos locais mais afetados pelas eólicas, possui inúmeros registros de pinturas rupestres, preservadas pelos povos originários e pelos povos que se fixaram no território nos últimos cinco séculos. São pelo menos dez comunidades quilombolas reconhecidas pelo Incra e nenhuma dessas comunidades foi devidamente consultada para opinar sobre a destruição de símbolos ancestrais.
O avanço da implantação das eólicas se deu com a criação de subempregos. Sarah testemunha sobre como os seus parentes trabalhavam como peões na construção das torres, enquanto as máquinas passavam por cima de 4 mil espécies de orquídeas. “São poucas as pessoas que eu vejo reclamando, são mais aqueles que sentem a dor. Me é absurdo saber que a forma de linguagem do meu povo está sendo apagada para os outros ganharem dinheiro”. Mais do que acompanhar esses impactos — socioambientais e econômicos de perto – Sarah sofre ao testemunhar a violência simbólica.
Pinturas rupestres, que para muitos são apenas traços em pedras, para ela são documentos sagrados da existência do seu povo. “Já me tiraram muito e estão retirando mais um direito, a escrita do meu povo, os desenhos do meu povo, que eles chegam e destroem (…) Simplesmente passam com o trator e dizem que é o avanço, ou o progresso.”
A energia produzida ali não fica para os moradores. As torres cortam as roças, mas a eletricidade vai para longe — abastecer fábricas e grandes centros urbanos. Hoje, enquanto muitas lideranças se acomodam ou são ameaçadas diante dos acordos com as grandes empresas, Sarah escolhe seguir enfrentando os gigantes do ferro e do concreto. Seu pensamento, tachado de “bruto” por quem detém o poder, carrega uma ética mais profunda: a de viver com o mínimo impacto, respeitando o ciclo da terra, cozinhar com os gravetos recolhidos de sua roça.“Eu já virei a chata, mas eu não tenho medo nenhum de falar, os caras passam por cima de mim, por cima dos meus amigos, e eu não vou falar?”
No caminho da resistência ancestral Sarah ajudou a construir o 1º Encontro do Movimento dos Atingidos/as por Renováveis (MAR), que ocorreu entre os dias 23 a 25 de maio de 2025. Ao lado de mais de 130 participantes de toda a região Nordeste, ela se uniu a representantes da Bahia, vindos de universidades, associações, lideranças indígenas, organizações comunitárias etc., numa poderosa articulação nacional. Nesse espaço de escuta e resistência, Sarah reafirma seu compromisso com a luta por justiça socioambiental, ampliando vozes e denunciando os impactos causados pelas energias renováveis sobre os nossos territórios e as nossas comunidades.
Entrevistas realizadas nos dias 08 de maio de 2024 e 23 de maio de 2025, por Joana Horta e Erica Araújo
Lutas e muitas vivências com uma esperança vasta @vivasarahpaiaia 🎵🎤🎶