Durante visita realizada em 16 de outubro, a Defensoria Pública da União dialogou com representantes da comunidade quilombola da Bocaina, em Piatã (BA), sobre os efeitos da mineração na região e reafirmou o compromisso com a defesa dos direitos da população local, em meio a diferentes opiniões sobre a atuação da empresa.

Por Lucas Assunção

Foto: Lucas Assunção

A Defensoria Pública da União (DPU) esteve reunida com moradores da Associação dos Moradores das Comunidades Quilombola Bocaina, Carrapicho e Capão, em Piatã (BA), no dia 16 de outubro, para acolher relatos e percepções sobre os impactos socioambientais provocados pela atuação da mineradora Brazil Iron. O encontro teve como objetivo compreender a situação atual da comunidade, avaliar demandas urgentes e discutir medidas de proteção e reparação.

   Segundo o defensor regional de Direitos Humanos, Diego Guimarães Camargo, a presença da DPU na Bocaina faz parte de uma iniciativa contínua de promoção dos direitos humanos, com foco na proteção de comunidades quilombolas. “Nós temos uma ação civil pública movida contra a Brazil Iron, e soubemos que o governo estadual está correndo para conceder novas licenças ambientais para que a empresa volte a minerar. A visita teve como objetivo escutar a comunidade, entender como ela percebe a mineração e tratar também da consulta prévia, livre e informada, que é um direito das comunidades tradicionais”, explicou Camargo.

  O defensor destacou ainda que o encontro abordou outros temas de interesse coletivo, como o acesso a serviços públicos básicos. “Ficou claro que há dois problemas principais: a questão da água, com o compromisso do governo estadual de criar uma barragem para reter água no período da chuva, e o deslocamento dentro da comunidade, por causa das estradas ruins”, completou.

Foto: Lucas Assunção

A manifestação segue sem previsão de término, e os moradores afirmam que só liberarão a rodovia após serem ouvidos por autoridades competentes. Enquanto isso, o Rio Utinga, símbolo de vida e resistência na Chapada Diamantina, volta a ser o centro de uma disputa pela água, no que diz respeito a possibilidade de viver, resistir e produzir no território.

Durante a reunião, houve diversas manifestações: parte dos moradores demonstrou apoio à atividade mineradora, enquanto outros expressaram preocupação com os impactos socioambientais e sociais provocados pela expansão da empresa.

   Para Patrícia Silva, nascida na Bocaina, é necessário refletir sobre os impactos mais profundos do processo. “É preciso considerar o risco de prejuízos profundos, rememorando um passado marcado pela escravidão, cujas consequências ainda se fazem sentir em nossa comunidade. O direito de escolher, de permanecer no lugar de origem, é fundamental”, afirmou Silva.

   Ela também ressaltou que, embora reconheça a importância do emprego oferecido pela mineradora, é essencial ponderar os custos coletivos e a necessidade de transparência. “O conhecimento é poder, e infelizmente há uma falta de transparência por parte da empresa, que impede as pessoas de se informarem e de lutar por seus direitos”, acrescentou.

   A presidente da associação local, Catarina Oliveira, reforçou o sentimento de pertencimento e a importância da união comunitária diante das transformações recentes.

“A gente tem que lembrar que a Bocaina já existia antes de tudo isso, e que a gente, apesar de ter menos do que hoje, parece que a gente era mais feliz e mais unidos”, destacou Oliveira.

Foto: Lucas Assunção

   A visita faz parte do acompanhamento da DPU às comunidades quilombolas da Chapada Diamantina, em meio às preocupações sobre a possível retomada das atividades da Brazil Iron na região. O encontro representou um momento de diálogo franco e de reafirmação do direito à permanência nas terras e à dignidade coletiva.

   A presença da Defensoria Pública da União na Bocaina marca um passo importante no fortalecimento da relação entre Estado e comunidade, diante das transformações provocadas pela mineração. Enquanto o processo judicial segue em andamento, os moradores continuam mobilizados em defesa da transparência, da proteção ambiental e da preservação do território, reforçando a importância de decisões que considerem tanto o desenvolvimento econômico quanto os impactos sociais e históricos.

*Aluno do curso de Jornalismo da Uneb Seabra. Sob orientação da professora Dayanne Pereira.

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